
Em uma época em que a vida era mais intensa na zona rural, surge a Cavalhada, reunindo grande número de cavaleiros e verdadeiras multidões de torcedores dos famosos cordões azul e encarnado. Em Mãe d’Água as pelejas e exibições ocorriam na sede e no distrito de Santa Maria Gorete, a partir da década de 60, tendo à frente o popular Zé Novo, encarregado de todo o processo de organização. A competição acontecia aos sábados e domingos, e tinha entre os primeiros praticantes Zé Hipólito, os filhos de Zizi do Morro da Favela e Quixabeira. Ao final da competição, o ponto de maior atração era o tradicional forró pé de serra, com os antigos sanfoneiros de Santo Estevão e da família Cabral. A festa popular misturava religiosidade, cultura e folclore, com destaque para a bravura dos cavaleiros e a beleza dos trajes de cavalos que, em Mãe d’Água, eram enfeitados de fitas e vários outros materiais que criavam pompas aos animais e encantavam a assistência. Contudo, a rivalidade chegava a intervir em outros campos, notadamente os festivos, com repercussões desastrosas, a exemplo de uma lembrada por Chico Canuto, ocorrida na residência de Vicente Félix, na fazenda Alecrim, por volta de 1965, onde se realizava uma novena seguida de leilão. Por precaução, o anfitrião solicitou as armas de fogo conduzidas por alguns participantes, recolhendo, entre outras, o revólver de Vicente de Freitas. O desentendimento teria sido desencadeado através de pabulagens entre membros das famílias Valadares e Bernardo. Os irmãos Ari e Dali, plantadores de arroz, desacatavam Salu, que se apresentava como valente pegador de onça. Em dado momento, o leiloeiro Bastinho – namorado de Toinha, filha de Laura Bernardo, subiu uma galinha com uma garrafa de cana, aguardando os lances. Surgem os insultos: “- Essa é minha, graças ao dinheiro do arroz e algodão”; “Compro eu, com o recurso da venda de couro de felino”, o embate chega às vias de fato e o festival de facadas se sucede, além de tiros disparados pelo dono da casa, resultando em pelo menos dois mortos e um ferido. É também da Seara de Chico Canuto, alguns relatos espirituais que constituíram grandes tradições e até chegaram a ser inseridos no nosso folclore. O encontro de ossadas humanas no serrote que fica por trás da casa em que residiu durante décadas e muitas assombrações. Narra, por exemplo, que em certa noite em que se encontrava deitado no alpendre, visualizou uma luz azul no infinito, a qual se aproximara com mudanças de intensidade, chegando a transformar-se em uma pessoa que se esfregava na sua rede, fazendo-o perder a fala e ficar estável, até que, após o retorno à luz, desaparecera instantaneamente.
Fazendo referências à morte de Joaquim Catingueira, esposo de Maria e pai de Zumira, Quitéria, Lena, Francisco e José Fernandes Sobrinho, o qual tirou a vida com um tiro de bacamarte enquanto a mulher e as meninas participavam de uma novena no sítio Exu, de Zé Florindo, disse que o mesmo já apresentava uma certa falta de lucidez, com sintomas de loucura, caminhando sozinho e dialogando consigo mesmo, além de alguns toques espirituais, interferindo no comportamento da própria natureza, deduzido no cortejo do seu corpo entre o sítio e a igreja, momento em que alguns macacos (gorilas), nunca vistos antes na região, desciam a serra e ficavam a observar a passagem, além de um bode preto que entrou repentinamente no templo, arrodeou seu caixão em disparada e saiu desenfreado pela rua central de Mãe d’Água.
Por fim, na conversa registrada em 10 de julho de 2025, falou sobre a tradição das botijas, narrando um fato que, segundo ele, trazia uma forte ligação com Sabino Viana, personagem da história de Mãe d’Água, que não chegou a conhecer, mas, pelas características apresentadas, fez parte de uma passagem em sua vida. Tratava-se de uma das vindas do sítio Alecrim, acompanhando a namorada Ana Virgínio e Raimunda esposa de Zé Virgínio (irmão de Ana) quando, durante a caminhada, vislumbraram em frente a uma casa de taipa um homem franzino vestido de mescla azul, chapéu de massa, que escavava o terreno frontal, iluminado por uma lamparina. No retorno, ele já se postava em um tamborete removendo a terra, sentado em um banquinho, mantendo a alavanca ao lado. No dia seguinte, por mera curiosidade, voltou ao local e nada encontrou como marca. Sabino já havia falecido há anos. Fonte: Livro Mãe d’Água do Romano, de autoria de Damião Lucena.
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