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Mãe d’Água na História: José, o Pregador

     Como explicar a abnegação de um ser humano que, para pregar a palavra de Deus em meio aos menos favorecidos, usava como método a linguagem mais simples, chegando ao ponto de se transformar em um autêntico membro da realidade de exclusão? A resposta pode ser expressa na existência de “José: o pregador”, como ficou conhecido na cidade de Mãe d’Água, nas duas vezes em que a visitou, chegando do nada e saindo de forma desapercebida, depois de conquistar uma parcela significativa da comunidade católica, à custa da humildade e grande conhecimento de causa, que conseguia expressar a grandeza da fé cristã. Falava, com propriedade, do novo testamento e referenciava o antigo, com a plenitude de quem dedicou a vida aos estudos religiosos. Tinha o anonimato como grande marca, não informando de onde vinha, nem manifestando qualquer pretensão de próximo destino. Afirmava não ter sobrenome, apresentando-se, apenas, como José de Deus. Perguntado sobre a origem, se restringia a dizer: - do Divino Espírito Santo, da natureza, do mundo e assim por diante. Não conduzia bagagem, apenas a roupa do corpo que, quando sujava, pedia peças emprestadas de alguém do seu tamanho, usando-as apenas enquanto lavava e secava o seu único traje. Primava pela limpeza, conduzia, talvez, alguns documentos pendurados em uma bolsinha embrenhada, como colar, no pescoço, além de uma pequenina bíblia. Expressava sabedoria enquanto falava aos populares nas ruas, praças, cemitérios, templos, com aconselhamentos à bondade, divisão dos bens, amparo aos mais pobres, desapego a patrimônios e valorização ao Pai Criador. Foi assim que ganhou adeptos e, em pouco tempo, passou a ser bem acolhido por vários moradores, além de chegar a ser hóspede da Casa Paroquial e receber o apoio, em 1998, do então vigário Melchizedech de Oliveira Neto. Sua aparência remetia a de uma pessoa com aproximadamente 50 anos de idade, 1,70m de altura, cabelos lisos e crescidos. Comia pouco, não exigia cardápio, preferindo se alimentar nas casas mais pobres, às vezes ingerindo apenas um pouco de feijão e farinha. Demonstrava ter amplo conhecimento relacionado à ciência, por vezes se debruçava em algum computador disponibilizado por algum habitante, mostrando-se bastante hábil na pesquisa. Chegava a falar, até mesmo, de futebol.

     Nas poucas pistas que deixou, além de sua vida de andarilho por alguns estados nordestinos, José – o pregador, assinalava o cumprimento de missão idêntica no Vale do Jequitinhonha, região de Minas Gerais, que se estende desde o Serro até Belmont, na Bahia, o que pode ser um sinal de sua terra de nascimento, ou reduto de moradia dos seus familiares. Antimaterialista, distribuía com as pessoas mais simples tudo o que lhe traziam como doações. Assim, como chegou, saiu em uma madrugada, de forma discreta e seguiu seu destino no cumprimento das tarefas traçadas por ele como missão de vida. Na indagação do poeta, a pergunta permaneceu em Mãe d’Água: “E agora José... José para onde? Fonte: o livro “Mãe d’Água do Romano”. Autor: “Damião Lucena”.

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